Algumas Considerações Sobre as Relações Sino-Brasileiras*
O presente artigo tem como objetivo trazer algumas considerações sobre as relações sino-brasileiras no que tange aos interesses econômicos e geopolíticos.
É notório que os governos de ambos os países possuem interesses parecidos no que se refere à na construção de uma geopolítica multipolar que atenue a supremacia norte-americana, principalmente após a divulgação da chamada Doutrina Bush.
No que se refere aos interesses econômicos, o país oriental vê a região e o Brasil como parceiros comerciais, principalmente em relação às matérias-primas, indispensáveis para o crescimento econômico. Para os brasileiros, o aumento das relações com a China abre perspectivas de aumento do comércio para os seus produtos no mercado mais promissor do mundo.
Da Bipolaridade à Multipolaridade: uma Perspectiva em Construção
O fim da Guerra Fria assinalou importantes alterações geopolíticas para todo o planeta. Aliás, a temática foi muito debatida nas últimas décadas por todos os cientistas sociais e econômicos.
Na prática, a superação de um mundo baseado na bipolaridade foi dando lugar a uma perspectiva de integração comercial alicerçada em blocos econômicos que correspondem aos grandes eixos continentais: as Américas sob a hegemonia norte-americana, a Europa com a presença alemã e o asiático com a preponderância dos japoneses.
O fato é que após o colapso socialista, alguns teóricos previram uma nova era de hegemonia absoluta da economia de mercado sob preceitos liberais: uma integração econômica na qual reinaria a tranqüilidade militar como uma norma geral e o capitalismo como marco civilizatório.
Em termos econômicos as previsões se concretizaram, porém o mesmo não aconteceu em termos da chamada segurança internacional.
Os ataques de 11 de Setembro contra a potência hegemônica, por parte de organizações anti-sistêmicas de origem fundamentalista islâmica, acirraram a lógica imperial e, com ela, o surgimento da Doutrina Bush.
Dentro deste quadro adverso para grande parte do planeta, brasileiros e chineses vem procurando ocupar o seu espaço geopolítico como forma de garantir melhores condições econômicas e de segurança.
Em 2004, as relações sino–brasileiras completaram trinta anos, fato que foi marcado pela visita do presidente Luís Inácio Lula da Silva à China. A visita marcava o interesse do Brasil em aprofundar as suas relações econômicas com a maior nação populacional do planeta e detentora do maior crescimento econômico dos últimos vinte e cinco anos.
Em fevereiro de 2006, o vice-presidente da República, José Alencar, foi à China com a finalidade de instalar a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Coordenação e Cooperação (COSBAN), criada durante a visita do presidente Lula.
Em termos práticos, o governo Lula vem tentando conquistar espaços geopolíticos para o Brasil não só como forma de influenciar o sistema internacional, tal como construir um pólo alternativo com outros países à supremacia dos EUA, seja ela econômica ou ideológica. Sem dúvida alguma, é um projeto audacioso.
Aliás, tal perspectiva é divida por brasileiros e chineses. Há muito tempo a China vem construindo um amplo arco de alianças para implementar o seu projeto geopolítico de autonomia dentro de um mundo multipolar.
Para vários analistas internacionais, o governo chinês vê a América Latina e o Brasil como importantes fornecedores de matérias-primas ao país. Atualmente as importações chinesas vão desde a soja produzida no Brasil, passando pelo cobre e celulose do Chile, e chegam até o petróleo venezuelano. Parece que os analistas estão corretos.
No decênio 1993/2003, o comércio da China com a região cresceu 600%, totalizando 30 bilhões de dólares. A China, por exemplo, tornou-se o segundo parceiro comercial do Brasil.
O intercâmbio comercial entre Brasil e China, que em 2000 era de US$ 2,3 bilhões, chegou a US$ 9,1 bilhões em 2004. Mais da metade das exportações brasileiras à China foram resultado da venda de minérios de ferro e da soja e seus derivados. Na prática, o Brasil fornece aos chineses os insumos necessários para o desenvolvimento econômico (minério, laminados planos, couros e peles, petróleo e semimanufaturados de ferro e aço) e a soja é responsável por 36% do total importado pela China. A Companhia Vale do Rio Doce, por exemplo, fornece 20% do minério de ferro importado pelos chineses.
Em estudos solicitados pelos empresários brasileiros para a inserção de produtos brasileiros, ficou demonstrado que a metalurgia, alumínio e fármacos podem alcançar projeção no mercado chinês. A grande preocupação dos empresários brasileiros é a grande competitividade dos chineses. Com uma mão-de-obra extremamente barata, os custos de produção ficam abaixo da média internacional.
Perspectivas para a América Latina
Como já assinalamos, a construção de uma geopolítica multipolar é o interesse que unem chineses e brasileiros há algum tempo. Para a América Latina, o fim da Guerra Fria representou uma perda de prioridade por parte dos EUA. Na atualidade, os norte-americanos estão envolvidos na manutenção de suprimentos no Oriente Médio.
A própria “luta contra o terrorismo” apregoada pela administração Bush nada mais é do que a luta pelo monopólio sobre as fontes de petróleo indispensáveis a saúde da economia norte-americana.
A única preocupação dos EUA é a chamada “onda vermelha”. Se ela não tivesse ocorrido, a “calmaria” na América Latina seria total. Hoje, Hugo Chávez é a principal preocupação geopolítica no continente.
Pelo lado chinês, aparecem dois pólos importantes de preocupação: o primeiro seria manter o crescimento econômico, que necessita de recursos naturais indispensáveis para alcançar este objetivo. O segundo seria a preocupação geopolítica chinesa de inviabilizar dentro de suas possibilidades a formação do mundo unipolar comandado pelos EUA.
O Brasil surge como um importante parceiro na América Latina em virtude sua liderança natural em termos econômicos. O Brasil, como a China, acredita que a segurança internacional só será consolidada dentro de um ambiente de cooperação e respeito mútuo.
Deste modo, as relações entre Brasil e China e conseqüentemente com a América Latina ainda possuem grandes perspectivas de sucesso.
Colaboração Revisional: André Vinicius Lira Costa
* Trabalho apresentado no seminário Las Relaciones de China en Argentina, Brasil y Chile em Buenos Aires (Argentina), 11/04/2006. Seminário patrocinado pelo Boletín de Relaciones Internacionales e Escuela de Defensa Nacional.
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