Jean-Paul Sartre: 100 anos

 

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Este mês gostaria fugir do assunto do momento (a crise petista) para  abordar e homenagear um dos mais influentes filósofos do século XX: Jean-Paul Sartre. Sou uma pessoa suspeita para escrever sobre ele, pois o considero um dos maiores pensadores do século passado. As marcas de sua filosofia sobre o meu modo de ver o mundo são inegáveis.

Como forma de homenageá-lo vou reproduzir um artigo escrito por mim  no dia 21/06/1992 para o Caderno Educação do Jornal dos Sports do Rio de Janeiro (suplemento dominical). Na época, Sartre teria completado 87 anos.

 

Existencialismo e Educação

 

Há exatamente 87 anos nascia Jean-paul Sartre uma dos maiores filósofos do nosso século. Entretanto, muitas pessoas podem achar exagerada esta afirmativa, já que Sartre foi uma figura polêmica até o fim de sua vida. O dado mais importante foi a projeção mundial de sua filosofia, combatida por vários setores da sociedade francesa e nos países onde ela penetrou.

Sartre (além de filósofo) foi dramaturgo, crítico literário, jornalista e militante político, provando a sua vocação eclética. Essas múltiplas atividades não prejudicavam suas análises incisivas e profundas sobre todos os temas abordados.

Em 1933, Sartre foi para a Alemanha estudar a Fenomenologia de Husserl (1859-1938) e as teorias existencialista de Heidegger (1889-1976), Karl Jaspers (1883-1969) e Kierkegaard (1813-1855). Tais estudos foram importantes para a formulação de sua teoria existencialista. Em 1938, publica o seu primeiro romance, “A Náusea”, que já demonstrava suas ligações existencialistas.

A trajetória do pensamento sartreano possui a contribuição fundamental de Husserl, através do método fenomenológico que permitirá uma ontologia existencialista. O primeiro a usar tal perspectiva será o filósofo Heidegger. Sua principal obra e mais difundida é o “Ser e o Tempo” (1927), que marca a preocupação em discutir o Ser. Apesar de Kierkegaard ser considerado ser considerado o fundador do existencialismo, Heidegger é reconhecido como o principal de todos. Entretanto, sempre rejeitou o rótulo “existencialista”.

O livro que projetou Sartre no cenário mundial foi o “Ser e o Nada” (1943), em plena Segunda Guerra. Depois deste livro, nosso filósofo dá concreticidade ao escopo teórico-filosófico através do axioma: “a existência precede a essência”. Invertendo os conceitos defendidos, até então, por seus antecessores.

Desta maneira, nasce o existencialismo sartreano, onde destaca que “o Homem primeiro existe, descobre-se, surge no mundo; e que só depois se define”. Assim, não existem fatores exógenos que mudem a existência humana, nem mesmo Deus. O seu existencialismo era ateu, daí sua polêmica interminável com os setores religiosos.

Sua grande popularidade ocorreu nas décadas de 50 e 60, num cenário europeu do pós-guerra, onde as condições políticas, econômicas e sociais ainda não eram das melhores. O confronto bélico tinha trazido desesperança à sociedade européia, atingindo-a em toda plenitude na esfera social, nas suas relações. O existencialismo proposto por Sartre, seria o catalisador destes anseios, alcançando grande repercussão em todas as partes. Com sua popularidade, seus críticos eram implacáveis: deturpavam toda a sua filosofia.

Em 1964, recusa o Prêmio Nobel de Literatura, reafirmando sua vocação polêmica e a autenticidade de suas posições. A quantidade de livros, peças de teatro e artigos é inúmera. Talvez seja por toda essa produção eclética, que Sartre seja lembrado somente como dramaturgo ou crítico literário. Ocorre um esquecimento de sua produção filosófica.

Creio que seja a hora de resgatar o filósofo Jean Paul Sartre. Sem dúvida, a filosofia vive de “modas”. Aliás, o próprio filósofo foi vítima dos modismos  que na realidade vulgarizam todos os conceitos. Que não se lembra das “modas” Louis Althusser, Michel Foucault e agora Gilles Deleuze?

O pensamento nunca envelhece, ao contrário, é testemunha da evolução humana. Platão na “República”, já demonstrava a sua preocupação com os rumos da Pólis, da relação Bem Público e Bem Privado, tratando de elaborar premissas que equacionassem estes problemas. Qualquer semelhança com os nossos políticos e PCs, é mera coincidência. Portanto a Utopia de uma  cidade ou Estado e, conseqüentemente de uma sociedade ideal, é bem mais antiga do que pensamos.

Fica a nossa constatação que Filosofia e Educação caminham juntas rumo ao restabelecimento de uma postura ética e moral em nossa sociedade. Deixamos registrada a nossa homenagem ao grande filósofo Jean-Paul Sartre e que as gerações posteriores aproveitem o seu legado.

 

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