A Ingratidão de Norte-Americana a Saddam Hussein
A execução do velho aliado norte-americano dos anos 80, Saddam Hussein, marcou definitivamente o que devemos entender por "democracia no Iraque" sob a tutela dos EUA. Como não poderia deixar de ser, desde a invasão do país por motivos absolutamente torpes, a execução de Saddam foi emblemática. O que está em jogo é o que toda a população do planeta já sabia: o domínio das fontes de petróleo. Antes de entrar nesta questão, vou fazer uma pequena retrospectiva do governo Saddam Hussein nos anos 80 e da sua aliança com os EUA.
A Revolução Islâmica de 1979, liderada pelo aiatolá Khomeini, enfraqueceu consideravelmente a posição geopolítica norte-americana no Oriente Médio. Se antes Israel atuava como uma cabeça-de-ponte dos interesses do Tio Sam na região, o Irã tornou-se uma grande preocupação. Mas, preocupação por quê?
O "modelo" islâmico xiita é totalmente "anti-ocidental", mais precisamente anti-capitalista. O consumo, pilar do capitalismo, não é incentivado e dificulta a introdução do padrão consumista ocidental que interessa, por exemplo, às multinacionais. Com tais características, os EUA passaram a se preocupar com a influência dos xiitas iranianos no Oriente Médio.
Por outro lado, os sunitas (grupos "moderados" que não defendem um Estado teocrático), também passaram a se preocupar com a força dos xiitas iranianos que se tornaram defensores do seu modelo como um parâmetro para a região.
Sendo assim, Saddam Hussein tornou-se o principal opositor dos xiitas iranianos por uma questão lógica e pessoal: a população iraquiana é majoritamente xiita e ele, sunita. Desta maneira, só poderia mantê-los sob controle através de uma violenta repressão. E foi dessa maneira que Saddam manteve-se no seu controle do país até 2003.
Agora, chegamos ao papel desempenhado pelos EUA na relação com o Iraque. Apesar dos assassinatos contra os xiitas iraquianos, o governo Reagan nos anos 80, não viu nenhum "motivo" para condenar o regime de Saddam Hussein por suas barbáries contra os seres humanos. Afinal, ele era uma "boa pessoa" e um "grande líder", enfim: um DEMOCRATA.
Reagan e Saddam tornaram-se grandes parceiros. Parceria regada a muito dinheiro e armas, principalmente químicas que foram utilizadas contra curdos e os iranianos. A guerra Irã-Iraque ocorreu dentro deste contexto: caberia a Saddam, um velho democrata e amigo da América, acabar com os inimigos da liberdade.
Amigo leitor: de Reagan até Bush filho, todos os presidentes da Nação da Liberdade tiveram Saddam Hussein como aliado contra o Irã. A Guerra do Golfo de 1990 ocorreu sob dois fatores: o primeiro foi a renúncia da URSS em se meter na questão. Se Gorbatchov apoiasse o Iraque, não teria ocorrido a guerra ou, no máximo, ela terminaria empatada. O segundo fator foi o devaneio de Saddam Hussein em controlar a região. Existe um limite claro para os EUA não aceitaram isso: muito poder na mão de uma pessoa só.
Contudo, Saddam deveria existir para manter o equilíbrio na região. Nesta época os EUA nem pensavam em ocupar militarmente qualquer país da região. Bush pai não tirou Saddam do poder, pois simplesmente não podia: quem combateria o regime dos aiatolás?
Geopoliticamente a existência de Saddam era de fundamental importância para os interesses dos EUA. O Iraque chegou a contar com um exército de um milhão de soldados e equipamentos bélicos comprados do Brasil, França, EUA etc. Agora, o que teria alterado a lógica norte-americana de fazer um controle indireto sobre o Irã?
Há várias teses para explicar a alteração "tática" dos EUA. Em minha concepção, a administração Bush “trocou os pés pelas mãos”, como se diz popularmente, ao visualizar a possibilidade de impor o seu poder bélico sem encontrar oposição. Ou seja: a Doutrina Bush "avisou" a todos os interessados que, caso não seguissem as ordens norte-americanas, sofreriam "duras" conseqüências, vide Afeganistão..
Como disse Madeleine Albright ex-chefe do departamento de Estado do governo Clinton, ao apontar a possibilidade de um contato "físico" com os países fora-da-lei (Rogue States) - os EUA possibilitaram aos "inimigos" os motivos legais de se prepararem para uma luta.
Bem, e “o julgamento” de Saddam Hussein com esta história? O fato é que a "Corte" que julgou Saddam Hussein não possuía a menor credibilidade, pois deveria apontar como co-autores de crimes contra a humanidade Reagan (in memoriam) e Bush pai que patrocinaram as barbáries de Saddam Hussein contra os curdos, os iranianos e o próprio povo iraquiano.
Há justiça no Iraque? Por que não enforcar Bush pai e Clinton? E existe o pior: a acusação (motivo da execução) de que Saddam jogou ácido sobre os curdos nos anos 80 não procede: foram os iranianos que cometeram tal ato (confirmado), já que na fronteira entre os dois países existem várias comunidades curdas.
Sendo assim, no banco dos réus além de Saddam deveríamos ter Bush pai e Bill Clinton. Aí sim, teríamos um julgamento justo e verdadeiro. O resto... é mais uma vergonha para a história da humanidade.
Onde estão os especialistas, acadêmicos e diplomatas que não se revoltam por uma questão jurídica (pelo menos) contra a execução de Saddam? Nem os nazistas foram executados a toque de caixa como Saddam. Terá sido Saddam pior que os nazistas? A administração Bush não teria uma perspectiva neonazista de torturar, ameaçar e matar os seus "inimigos"? Não seriam Abu Ghraib e Guantánamo uma versão moderna da máquina de horror nazista? Disseminar mentiras através da imprensa e contá-las a exaustão não é o mesmo que Goebells fazia? Ao invés de Goebells temos, hoje, a CNN, NYT e The Economist, pintando o mundo de Azul e falando em Democracia, Direitos Humanos e Dignidade. Não respeitar os Direitos Humanos também não faz parte de uma linha totalitária?
Liberdade e Direitos Humanos para o Capital, não para o Indivíduo.
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