A Nova Cruzada da Direita da Brasileira

 

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Durante o mês de outubro observamos o avanço do discurso conservador sobre os livros didáticos de História. De uma hora para outra, pessoas desqualificadas, aproveitando-se de suas posições privilegiadas na mídia, “analisaram” alguns livros.  A partir de afirmações desprovidas de base teórica, o Sr. Ali Kamel, funcionário das Organizações Globo, promoveu um rápido “linchamento” de inúmeras obras e de seus autores.

Os “argumentos” iniciais resumiam-se a questiúnculas colocadas nos livros que já haviam sido avaliadas por equipes técnicas do MEC para o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e aprovados para a compra e distribuição pelo governo. Os fragmentos citados fora do contexto total induziriam os desavisados a acreditarem na “onda comunista que assola a pátria brasileira”.

Sob a pecha de combater a “esquerdização”, aliás, um interesse muito estranho, o Sr. Ali Kamel deu o pontapé esperado (e quem sabe patrocinado) pela direita brasileira, saudosa da época da Ditadura Militar.

Dentro de uma lógica orquestrada as revistas semanais “jornalísticas,” Época e Veja, deram vazão a incompetência escandalosa de seus “jornalistas” nas semanas seguintes. Vale lembrar que o Sr. Kamel apontou como “texto faccioso” a colocação de Mao Zedong (Mao Tsé-Tung) como “grande estadista” por um autor de livro de didático.  Talvez se o livro trouxesse como “grande estadista” George W. Bush ou Ariel Sharon, fosse aprovado pela sua “conceituada” análise.

Segundo o Sr. Kamel, isso estaria “errado”. O fato é que independentemente de uma pessoa ser comunista ou não, o líder chinês foi um estadista sim! Afinal, ele acabou com séculos de humilhação chinesa e proporcionou os primeiros passos dentro de uma análise dialética para que Deng Xiaoping (mesmo perseguido por ele durante a Revolução Cultural) desenvolvesse o seu programa de modernização do país. “Mas ele matou milhões de chineses”. Aí, é outra história. Ronald Reagan é um genocida. Será que se o livro colocasse Ronald Reagan como “estadista”, o Sr. Kamel ficaria “indignado”? As mortes provocadas por ele em todo o mundo através do discurso de “combate ao comunismo” totalizam mais gente morta do que as provocadas Mao Zedong só na China.

Não estou justificando atrocidades com outras como em um campeonato de quem matou mais ou menos. Estou colocando a questão central dos defensores da “imparcialidade”: se os “comunistas” matam são assassinos, enquanto os “capitalistas” quando fazem o mesmo estão lutando pela “democracia”. Isso não seria um ataque ideológico?

Se seguirmos esta linha de análise de quem matou mais ou menos em processos revolucionários, a Revolução Francesa, tão idolatrada pelas elites (pseudo) democráticas, deveria ser banida do “calendário”. O que foi o Terror senão a barbárie? O sadismo. Como ficamos? Visitei as celas parisienses do período revolucionário francês, hoje transformadas em museu, e pude constatar o tratamento dado pela Fraternité burguesa aos inimigos da Revolution.

Pela lógica do Sr. Kamel, a Revolução Francesa deveria ser tratada com a fina flor da barbárie humana. Sem dúvida alguma, em proporções menores, do tamanho da França.

Se o Sr. Kamel está realmente preocupado com as mortes, deveria escrever uma obra contra o capitalismo que mata diariamente de fome milhões de seres humanos em todo o mundo. Ou será que africanos, asiáticos e pobres não são seres humanos?

A Ditadura Militar brasileira levou o país ao crescimento econômico mas matou milhares de pessoas. Em função das mortes, devemos esconder os indicadores econômicos do país nos anos 1970?

O mais chocante foram os jornalistas (?) das revistas. Os argumentos colocados para seguir a lógica beócia foram terríveis. Como é possível profissionais (?) escreverem tanta besteira e assassinar a lógica formal? Não existe dignidade para um profissional? Todos nós necessitamos de trabalho e salário para a nossa sobrevivência, mas corromper a lógica para satisfazer os patrões é pior do que prostituição. “Matéria encomendada”... Isso é demais para mim. Pierre Bourdieu analisou muito bem esta linha jornalística no seu livro Sobre a Televisão (subserviência dos jornalistas aos seus patrões).

Certamente a direita brasileira quer que defendamos o seu modelo de distribuição da miséria como algo bom e fruto da “Liberdade” que desfrutamos. Devemos colocar nos livros que a culpa da miséria é dos miseráveis?

Bem meu caro leitor. Enquanto, os “especialistas” anunciam o fim de praticamente tudo, a realidade mostra o contrário. Esquerda... Direita... Será que esta divisão não existe realmente mais?

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