A "diplomacia" no Governo Lula
Por Luiz Fernando Bindi *
A história foi cruel
com Lech Walesa. Usou-se e abusou-se do líder operário polonês para denunciar
a podridão dos regimes socialistas. Seu sindicato, o famoso Solidariedade (ou
“Solidarnosc”, no original polonês) freqüentou até pára-brisa da classe
média festiva da PUC, no auge da moda. Depois, quando a cortina de ferro
desabou e se viu que o governo Walesa também era cheio de defeitos, o Lula de
Gdansk foi para o ostracismo. Até Bóris Yeltsin (quando sóbrio ou não) ficou
com mais crédito que ele na crônica da derrocada comunista. A badalação
internacional da figura de Lula guarda incômodas semelhanças com a saga de
Walesa. O
mundo de vez em quando elege um símbolo de moral. Lula é o mais novo
queridinho social do planeta. Pessoas como Jacques Chirac e Gerhard Schroeder,
com seus países afundados em desemprego e problemas previdenciários e econômicos
de grande monta, precisam desesperadamente se associar a alguma imagem positiva.
A Guerra de Bush veio a calhar, e eles sobreviveram uns bons meses com seu
pacifismo de ocasião, que na verdade, todos sabemos que era puro interesse econômico.
Mas a guerra acabou, os americanos estão chafurdando em terras de Saddam, e o
fenômeno do operário brasileiro que chegou ao poder voltou a ser a melhor
receita de ibope. A
reunião da OMC foi um retumbante fracasso em Cancun? Logo se descobriu um jeito
de dizer que o governo Lula tinha sido o grande vitorioso, criando o “Grupo
dos 21”. Todos saíram repetindo a conclusão sobre essa suposta jogada de
mestre, que ninguém soube explicar absolutamente que importância teve ou virá
a ter – e que diferença terá para os outros “Gs” e similares já
inventados e extintos. O
Banco Mundial não agüentava mais repetir sua cantilena contra a pobreza sem
que ninguém acreditasse nele. Agora basta estufar o peito e dizer que deu
dinheiro para o Brasil de Lula, dinheiro que daria ao país de qualquer jeito,
para qualquer governo. E
o que Lula faz com essa moral toda? Vai pedir uma vaga para o Brasil no
desmoralizado Conselho de Segurança da ONU. Instituição que sempre foi
semi-inoperante, servindo mais como uma espécie de título de nobreza aos seus
membros (que são os vencedores da 2a. Guerra Mundial, lembram?) e
que agora foi avacalhada de vez com o atropelo solene dos Estados Unidos na
guerra contra o Iraque. Não obstante a completa inutilidade dessa vaga, e a
mediocridade do projeto de tentar obtê-la, passou-se a enxergar aí um exemplo
de política externa arrojada. Lula
foi até Nova York dizer que os Estados Unidos não entendem nada de terrorismo:
este é um problema decorrente do mal-estar social, disse Lula, evocando a
palavra da moda. Talvez fosse instrutivo ao estadista-operário-starlet dar um
pulo em Israel e ver se o rapaz que matou Yithzak Rabin já teve um minuto de
carestia na vida. Mais materialistas que Karl Marx, Lula e o PT parecem achar
que se o planeta virar um grande canteiro de obras, com empregos de peão para
todo mundo, o ódio e os antagonismos sumirão da face da Terra. Ele
foi à ONU defender a revigoração do Conselho – Lula adora conselhos –
econômico e social, onde os burocratas internacionais teriam mais uma mesa para
suas reuniões (cujo principal resultado costuma ser a marcação de uma nova
reunião). Bom
seria se a ONU desse uma olhada na mais recente experiência brasileira desse
tipo, o tal conselho instaurado para que “a sociedade” discutisse as
reformas constitucionais. Como se sabe, os projetos saídos do conselho
presidido por Tarso Genro (o pai da filha famosa, dita radical...) eram de baixa
qualidade e representatividade, tanto que foram reescritos diversas vezes para
chegarem às formas atuais – que continuam desconhecidos. O
governo Lula ainda pode vir a ser um grande acontecimento administrativo, cheio
de soluções criativas e políticas públicas consagradoras. Por enquanto, a
julgar pela inconsistência do Fome Zero e de outros programas ruidosamente
anunciados, está mais para o padrão Lech Valesa – a força do governo dura
enquanto durar o encanto simbólico de seu líder. Lula está embriagado desse
encantamento, acha mesmo que poderá ser como árbitro de conflitos espalhados
pelo planeta, e depois de se meter na quase-guerra civil venezuelana, agora quer
ser o agente da paz na Colômbia. Antes
de mais nada, alguém que se candidata a arbitrar a paz na Colômbia, ou
acredita demais na sua reputação ou está querendo enterrá-la. Mas nada nesse
caso se compara à idéia esdrúxula de oferecer o solo brasileiro para sediar o
encontro entre as partes. Se Lula acha que está dando uma grande cartada diplomática,
alguém precisa informá-lo de que de um dos lados da mesa se sentará as Farc,
uma guerrilha financiada pelo crime organizado, ou seja, bandidos. Enquanto
o ibope não ameaça sepultar o governo, assim vamos indo. Lula
deveria saltar a tempo desse trono de inocente útil da política internacional.
Até porque, daqui a pouco o “New York Times” é capaz de resolver mostrar
que no país do presidente operário, cogitado para o Nobel da Paz, o FBI local
não tem dinheiro para botar gasolina nas viaturas, nem gente para atrapalhar a
festa do tráfico na fronteira com o Paraguai, muito menos políticos da esfera
de governo que saibam o que estão fazendo. E não há aposta mais arriscada do
que candidatar-se a santo antes de fazer o milagre. *
Atualmente,
trabalha na Libreria Editora (www.libreria.com.br), onde é Editor de Conteúdos
e de Projetos Especiais. Também é colunista especial do site Xgol.net (www.xgol.net)
e Revisor/Tradutor Cartográfico da revista National Geographic Brasil e presta
consultoria em Cartografia, Relações Internacionais e Geopolíticas. Você
encontrou algum erro? Ajude-nos a corrigir! Clique
Aqui. Copyright by Luiz Fernando Bindi,
2003. All rights reserved.