E Alexandre foi à guerra...
Por Luiz Fernando Bindi *
Já
ouço muitos analistas dizendo que esse garoto brasileiro que tentou se alistar
nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) não tinha nada na cabeça.
Ou que os pais não o amavam. Pode ser, mas não é o que ficou parecendo.
Alexandre
Donato deu impressão de alguma maturidade para sua adolescência, e os pais
apareceram como qualquer casal normal que dissesse para o filho pequeno “O que
você está fazendo aqui, meu filho? Já para casa.” Nesse caso, mais
produtivo do que espiar a casa da família Donato, talvez seja olhar o país do
qual Alexandre fugia.
Não
vale dizer que a culpa é desse antiamericanismo pueril (apesar de muito bem
motivado) que tem se espalhado por aí. Sempre há cabeças de adolescentes e
jovens sendo fisgadas por bobagens messiânicas. O fato novo é que há muito
tempo o terreno não estava tão fértil para a germinação disso. Os rebeldes
sem causa estão cheios de causas e não mais lutam por repolhos, como dizia
Quino pela boca de sua impagável Mafalda.
Alexandre
Donato até usou aquela ladainha cansativa, repetitiva e muito triste de
vendedores de chocolates em ônibus, que dizem que poderia estar ali roubando,
mas está tentando ganhar a vida honestamente. “Eu poderia estar me alistando
no tráfico de drogas do Rio de Janeiro, mas preferi aderir a uma guerrilha
revolucionária para salvar o mundo”, diria. É aí que começa o problema. Se
junto com a esperança, o idealismo também tivesse sumido do mercado, seria
menos mal. Mas idealismo brota até em cemitério. E quem há de negar que o
poder bélico e financeiro do tráfico exerce certo fascínio sobre a acéfala
rapaziada rebelde de hoje?
Desdizendo
Zuenir Ventura, 1968 acaba de terminar. Para os adolescentes e pós-adolescentes
de hoje chegou ao fim no momento em que o sonho de transformação pelo ativismo
democrático revelou-se uma pálida sombra do que prometia. A sociedade iria se
depurando à medida que a participação fosse aumentando, através dos canais
de representação política – esta era a mensagem. E como vai a tal
representação política, quase vinte anos depois do fim da ditadura? Vai de
mal a pior. Na Assembléia Legislativa do Rio, uma Comissão Parlamentar de Inquérito,
instrumento crucial da democracia, é falsificada pelos próprios deputados para
chantagear empresários e tomar-lhes dinheiro.
É
muito possível que Alexandre Donato tenha lido essa notícia chocante.
Provavelmente também leu que, no Espírito Santo, as imunidades dos
representantes do povo tinham se tornado escudo para atividades mafiosas. Por
todo o país, as instâncias formais de representação política dão sinais de
esclerose: partidos sem ideologia ou programa, parlamentares que privatizam seus
mandatos, governantes vivendo em simbiose com suas máquinas administrativas.
Contrariando o idealismo de 68, a prática insistente da democracia não podia
resultar apenas em mais democracia. E
sempre surgem os imbecis que dizem sentir saudades da ditadura.
Um
garoto rebelde do século XXI escuta rap, música que vem da periferia e sofre
na pele (normalmente negra), as mazelas de uma democracia horizontal. E o que
faz com o idealismo dele, se por ventura sofrer desse mal? Qualquer coisa, menos
depositá-lo em alguma dessas crenças da turma de 68 – partidos políticos,
movimentos sociais (existem ainda?) ou ONGs que desfilam de branco na praia aos
domingos. Num tempo em que deputados assaltam empresários à luz do dia, eu
lamento que um garoto pendure no quarto, lado a lado, os retratos de Che
Guevara, Comandante Marcos, Stédile e Osama Bin Laden, como já vi em agendas
de ex-alunos meus.
Alexandre
quer derrubar o capitalismo (ou pelo menos acha que quer). Provavelmente não
derrubará tão cedo nem os muros da proteção materna. Certa vez, o escritor
Antônio Callado perguntou a Hélio Pellegrino o que ele diria se encontrasse um
paciente chamado Brasil deitado em seu divã. O psicanalista respondeu que o
mandaria levantar-se dali, porque seu problema era político.
A incrível aventura de Alexandre e sua utopia colombiana talvez tenham vindo lembrar ao país que o diagnóstico de Hélio continua atual. Não mais porque a democracia precise renascer, como era o caso na época, mas porque tudo indica que ela envelheceu e está sendo, tal qual Louzadinha e Carmem Silva na TV, sendo maltratada pela bela Dóris, que assim como boa parte da classe dirigente do Brasil, é simpática externamente e podre no seu âmago.
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Atualmente,
trabalha na Libreria Editora (www.libreria.com.br), onde é Editor de Conteúdos
e de Projetos Especiais. Também é colunista especial do site Xgol.net (www.xgol.net)
e Revisor/Tradutor Cartográfico da revista National Geographic Brasil e presta
consultoria em Cartografia, Relações Internacionais e Geopolíticas.
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