Da União Soviética a Rússia: 10 anos sem o "socialismo real"

 

 

"(...) [O] marxismo tornou-se uma ideologia no próprio sentido de Marx dava a este termo: um conjunto de idéias que se confere a uma realidade, não para esclarecê-la e transformá-la, mas para encobri-la e justificá-la no imaginário, que permite às pessoas dizerem uma coisa e fazerem outra, apresentarem que não são".

Cornelius Castoriadis

 

    A queda do Muro de Berlim em 1989 trouxe uma  grande "felicidade" para a ordem capitalista internacional. Após mais de quatro décadas  de uma luta feroz contra o inimigo socialista, os EUA conseguiram finalmente vencer a corrida ideológica. Entretanto, a realidade após 12 anos sem o famigerado Muro e da "transição" para o capitalismo, a situação é bem diferente do que era sonhado e planejado pela população do antigo bloco socialista.

    Abordar os inúmeros fatores que levaram a decadência do regime soviético seria cansativo sob vários aspectos. Inúmeros livros abordam essa questão. Talvez o mais importante  a ser mencionado em relação a "surpreendente"  queda do socialismo real seja  a seguinte: muitos teóricos já sabiam do "desvio de rumo" do socialismo.

    Na minha opinião, dois teóricos são de fundamental importância para entendermos a paralisia da dialética marxista: Cornelius Castoriadis e Jean-Paul Sartre.  Castoriadis  em sua trilogia Encruzilhada do Labirinto, rompia com o marxismo sem vida do stalinismo. E o que era mais importante: rompia pela esquerda. Ou seja, não se tornava mais uma "viúva" da esquerda, caindo para perspectiva burguesa-liberal, tão comum nos dias de hoje. Castoriadis tinha a exata noção do iria acontecer com o dito mundo socialista, daí o rompimento feroz com o marxismo oficial.

 

 "Como base na herança dos dois filósofos poderemos entender o que está acontecendo  na Rússia e no Leste Europeu quando o modelo socialista, apesar de todos os seus erros, foi substituído pelo capitalismo selvagem"

 

     Em relação a Sartre, o filósofo francês  também teve a percepção do que o stalinismo estava gerando dentro do aspecto filosófico: o marxismo oficial impedia a dialética ao mesmo tempo que tornava o Homem um mero detalhe dentro da produção socialista. Trocava-se uma opressão pela outra. Em seu livro Crítica da Razão Dialética, advertia que

"O marxismo se degenerará em uma antropologia inumana se não reintegrar em si o próprio homem como fundamento". 

    Como base na herança dos dois filósofos poderemos entender o que está acontecendo  na Rússia e no Leste Europeu quando o modelo socialista, apesar de todos os seus erros, foi substituído pelo capitalismo selvagem. O que vem sendo oferecido a população pela troca é algo tenebroso e conhecido de todo o Terceiro Mundo sem exceção: pobreza e miséria. 

    O presente artigo pretende fazer um pequeno balanço econômico e social do antigo bloco socialista e da ex-URSS, procurando avaliar as transformações ocorridas na região além de tentar responder a seguinte indagação: valeu a pena?

 

Caminhando para o Terceiro Mundo

 

    O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) divulgava em 1999,  relatório abordando os aspectos socioeconômicos do Leste Europeu intitulado Transição 1999. No relatório, todas as mazelas da transição capitalista são expostas com a terrível crueldade dos números. Até o presente momento a situação é de verdadeira catástrofe humana. O capitalismo reservou  o pior para as populações da região. Dos bens de consumo abundantes nas prateleiras, carros importados e do glamour prometido, tudo se revelou como uma grande miragem.

    Das 25 nações do antigo bloco socialista e que totalizam 400 milhões de habitantes, hoje, 147 milhões de pessoas estão abaixo da linha da pobreza. Deve-se mencionar que, apesar de todos os problemas do socialismo real, a miséria no antigo bloco socialista era infinitamente inferior. Com as "liberdades" advindas do capitalismo, os investimentos sociais mudaram de foco: a "saúde" do capital financeiro passou a ser mais importante do que o da população.       Hoje, abordar o tema Leste Europeu é analisar a miséria, o desemprego, a criminalidade, a doença e a estagnação econômica, segundo a perspectiva do relatório.

   O fim do aparato social construído pelo regime socialista criou o efeito de uma verdadeira explosão sobre o Leste Europeu. O que se está verificando na área é a destruição de toda um a população sem nenhuma preocupação com os aspectos humanitários e até mesmo, cristãos. Enquanto o Ocidente propala os benefícios da globalização, milhões de pessoas estão morrendo todos os dias em toda  a Europa oriental. Aliás, em todo o mundo pobre.

 

"O fim do aparato social construído pelo regime socialista criou o efeito de uma verdadeira explosão sobre o Leste Europeu"

 

    Com o fim dos investimentos sociais e a introdução do "salve-se quem puder", a miséria tomou contas das ruas das ex-nações socialistas. As elites que controlavam os partidos comunistas se adaptaram a orgia capitalista mudando de camisa: atualmente, podemos ver os mesmos dirigentes do período socialista  no poder. Fica a pergunta: o que mudou? 

    Mudou a prioridade. Para continuarem no poder, as elites aceitaram as regras do jogo: deram as poucas indústrias rentáveis e contraíram enormes dívidas externas em troca de "comissões" generosas, além de desmantelar o sistema social. Algo como carros importados, viagens ao Ocidente etc. A conclusão do relatório de 100 páginas é facilmente tirado pelo leitor: capitalismo não é bom para nenhuma população. Não há meias palavras.

 

Socialismo ou Barbárie?

 

    O nome da velha revista marxista dos 60 parece perfeito para ilustrar a opção feita pelas elites do Leste Europeu. Para os que gostam de dados econômicos e sociais, analisar a região é muito interessante principalmente pelos contrastes. Vamos a ela.

    Na Hungria, um dos países "ocidentalizados" na época do socialismo real, o desemprego de longo prazo era de 91 mil postos de trabalhos em 1992. Em 1994 pulava para 186 mil de um universo de 10 milhões de habitantes. No Tadjiquistão, república da Ásia Central, 80% da população vive na pobreza e o salário real caiu 44% desde 1990. Na Eslováquia a dívida externa pulou de US$ 6 bilhões (1996) para US$ 10,5 bilhões (1998). Na Armênia, a hiperinflação ocasionou o aumento de 24.000% nos preços dos alimentos entre 1994 e 1998.         

    Onde está o capitalismo maravilhoso do Ocidente? Uma desculpa já existe: "estes países não seguiram o receituário milagroso do FMI". "Com fé em Deus, a situação vai melhorar". Pura piada.

    O pior ainda não foi mencionado. A Rússia de hoje está distante do passado imperial da "Grande Mãe Rússia" ou União Soviética. Não existe mais dignidade ou orgulho no país. A Rússia atualmente é uma grande farsa. Sua participação no Grupo dos 8 (G-8) ocorre em virtude da política norte-americana de "não zombar" da moribunda Rússia.  Na verdade a criação do G-8 foi feita para ajudar a eleição de Bóris Yeltin, o presidente-alcoólatra. Elevando a Rússia a posição de 8ª alguma coisa, melhoraria a situação interna, além de dar a noção de que o país ainda é uma "grande potência". Se as ogivas nucleares sumissem do país, a Rússia faria companhia ao Brasil ou a Argentina em importância geopolítica militar.

 

A barbárie russa: até quando?

 

    Dez anos após o fim da URSS o saldo não é nada favorável. O país caminha a passos largos para o Terceiro Mundo. Aliás, o primeiro passo já foi dado: não há investimentos sociais ou de infraestrutura. Talvez em mais uma década, o país seja figurante permanente nos índices de miséria da ONU.

 

"O motivo dessa redução drástica  é queda da qualidade de vida que ficou a cargo do nascente capitalismo. Segundo a revista norte-americana Newsweek a Rússia é um dos piores lugares para homens jovens viverem. Por que será?"

 

    O primeiro sinal da hecatombe pós-soviética é a taxa de natalidade e a expectativa de vida. Com o alto padrão social herdado do período soviético, a Rússia já estava na terceira fase da transição demográfica. Com uma população idosa grande, o crescimento vegetativo estava em queda e, agora, a situação é mais perigosa. A população da Rússia estimada atualmente em 146 milhões de habitantes, ficará reduzida em 2050 a pouco mais de 70 milhões de habitantes. O motivo dessa redução drástica  é queda da qualidade de vida que ficou a cargo do nascente capitalismo. Segundo a revista norte-americana Newsweek a Rússia é um dos piores lugares para homens jovens viveram. Por que será?

    Desde o início da década de 90, a expectativa de vida russa caiu de 64 anos (1991) para 59 anos (2000). A Rússia está atrás do Brasil, da Ucrânia e do Paquistão. A explicação para essa desgraça é o aumento de doenças como tuberculose, sífilis e hepatite, além do alcoolismo. Em relação a fertilidade, 30% das mulheres jovens são estéreis.

    A Aids caminha como um epidemia na população russa. O principal meio de transmissão do vírus HIV é a utilização de drogas injetáveis que aumentou 12 vezes desde o fim da URSS. Em 1999 ocorreu um aumento de 350% nos casos de Aids.

 

Os "vitoriosos"

 

    Certamente o quadro desesperador da Rússia traz a felicidade de muita gente. Ao capitalismo financeiro, o fim da URSS foi providencial para aumentar a base de arrecadação de mais-valia através de empréstimos financeiros aos países da região. Os antigos dirigentes socialistas se apoderaram das melhores empresas e hoje compõem o staff avançado dos interesses capitalistas.

    A máfia russa  controla  vários setores da economia e exerce com tranqüilidade a sua prática comercial: vende drogas para um grande mercado de consumidor, além de controlar toda a atividade ilícita do país.

   Podemos parabenizar sem dúvida alguma o sucesso da "receita" ocidental para o Leste Europeu e a Rússia. Formou-se uma uma sociedade decadente, miserável e podre de preceitos morais. Do totalitarismo político evoluiu-se para o totalitarismo do mercado, da minoria abjeta que traz em bojo o que há de mais degradante nos seres humanos: a falta de compaixão e a busca incessante pelo lucro fácil.

 

"Certamente o quadro desesperador da Rússia traz a felicidade de muita gente. Para capitalismo financeiro, o fim da URSS foi providencial para aumentar a base de arrecadação de mais-valia através de empréstimos financeiros aos países da região"

 

   Como o século XX trouxe a esperança de um mundo mais justo e humano, podemos a certeza de que o século que se inicia também trará muitas transformações. O século XXI será marcado pela mudança em que a palavra Revolução vai ser ainda muito usada.

 

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Créditos/fonte das fotos: 

Rússia: dos czres aos sovietes,v. II, Madrid, Ediciones del Prado, 1997.

 

 

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